Flacidez Não é Falta de Colágeno: A Verdade Que Ninguém Explica Direito

Eu sou a Dra. Camila Tlustak, cirurgiã plástica em Porto Alegre, e vou te contar uma coisa que me incomoda muito. Toda semana atendo pacientes que chegam ao meu consultório depois de gastar dinheiro com protocolos que prometiam resolver a flacidez — e não resolveram. E quase sempre, quando pergunto o que elas foram tratar, a resposta é a mesma: "me disseram que era falta de colágeno".

Não é. Pelo menos, não só isso.

A indústria da beleza pegou uma palavra — colágeno — e transformou ela numa explicação universal para tudo que cai, amolece ou perde firmeza no corpo. Ficou fácil de vender e difícil de questionar. Mas quem atende pacientes todo dia sabe que a flacidez é uma história muito mais complicada do que isso. E quando você trata o problema errado, o resultado é o que você já conhece: dinheiro gasto, frustração e a sensação de que nada funciona.

Primeiro: o que é flacidez, de verdade

Flacidez não é uma coisa só. É um guarda-chuva enorme que cobre pelo menos três situações diferentes, com causas diferentes, tratamentos diferentes e resultados esperados completamente distintos.

A primeira é a flacidez cutânea — a da pele mesmo. É quando a pele perde a capacidade de "voltar" depois de ser estirada. Você belisca e ela demora para retomar o lugar. Parece mais fina, mais sem vida. Essa é a flacidez mais associada ao envelhecimento da pele em si.

A segunda é a flacidez muscular. Os músculos do rosto, do pescoço, do abdome — eles sustentam tudo. Quando perdem volume e tonicidade, levam os tecidos acima deles junto. Uma barriga que "cai" mesmo em quem está no peso pode ser músculo, não gordura, não pele.

A terceira é a flacidez estrutural — quando os ligamentos e fáscias que ancoram os tecidos às estruturas mais profundas cedem. Isso é muito comum no rosto: aquela queda do terço médio, o sulco nasolabial aprofundando, a região da mandíbula perdendo definição. Não é a pele que caiu. É a sustentação interna que cedeu.

Saber qual dessas três está acontecendo — ou em que proporção estão combinadas — é o que define o tratamento. Tratar todas da mesma forma, com o mesmo protocolo, é uma aposta no escuro.

Colágeno: o que ele faz de verdade (e onde ele para)

O colágeno existe. A perda de colágeno existe. Não estou dizendo que é mentira — estou dizendo que é incompleto.

O colágeno é a proteína que dá estrutura e resistência à pele. Ele forma uma rede de fibras na derme — a camada média da pele — que mantém a pele firme e resistente. A partir dos 25 anos, a produção começa a cair. Aos 50, uma pessoa perdeu cerca de 30% do colágeno que tinha na juventude. Isso é real e tem impacto visível.

Mas o colágeno é responsável pela firmeza. Não pela elasticidade. Esses são conceitos diferentes, e confundi-los é onde a maioria das explicações falha.

Imagine a pele como um colchão de molas com tecido por cima. O colágeno é o tecido — a estrutura que dá firmeza e forma. Mas quem faz a pele "voltar" depois de esticada é outra proteína: a elastina. E a elastina tem uma característica que muda tudo na equação do tratamento.

A elastina quase não se regenera na vida adulta.

As fibras de elastina que você tem hoje foram formadas principalmente na infância e adolescência. Elas envelhecem, se degradam, se tornam menos funcionais — mas não são substituídas em quantidade significativa. Isso significa que a maioria dos tratamentos que estimulam colágeno — lasers, radiofrequência, bioestimuladores — melhoram a firmeza da pele, mas não restauram a elasticidade que foi perdida.

É uma diferença que muda completamente o que você pode esperar de um procedimento.

Se a sua pele está menos firme mas ainda tem boa elasticidade, um estímulo de colágeno pode fazer muito por você. Se a elasticidade já está comprometida — pele que você estica e demora a voltar, que forma dobras ao invés de retornar ao lugar — o resultado de procedimentos não cirúrgicos vai ser muito mais limitado do que te prometeram.

Existe outro ponto que confunde muita gente: pele desidratada versus pele sem colágeno.

São coisas completamente diferentes. A desidratação afeta a camada mais superficial da pele — a epiderme. Uma pele desidratada parece sem viço, com linhas finas mais aparentes, textura irregular. Hidratação tópica funciona aqui. Funciona bem e rápido.

A perda de colágeno está na derme, muito mais profunda. Você não resolve com creme, não importa quanto custe o creme. A pessoa que compra o hidratante mais caro achando que vai repor colágeno está pagando pelo erro de quem não explicou a diferença. E esse erro acontece o tempo todo.

O rosto que cai: por que tratar só a pele quase nunca basta

Quando olho para o rosto de uma paciente que está envelhecendo, não vejo apenas pele caindo. Vejo um conjunto de cinco camadas mudando ao mesmo tempo — e quase sempre em ritmos diferentes.

O osso reabsorve. A mandíbula perde projeção, as órbitas oculares se abrem levemente, o terço médio perde suporte ósseo. Essa reabsorção acontece devagar, mas acontece, e ela muda a base sobre a qual tudo o mais está apoiado.

O músculo atrofia. O SMAS — sistema músculo-aponeurótico superficial — é uma camada de músculo e fáscia que fica entre a pele e as estruturas mais profundas do rosto. Com o envelhecimento, ele cede. E quando cede, leva a gordura e a pele acima dele junto.

A gordura se redistribui. Os compartimentos de gordura do rosto não só diminuem — eles descem. A gordura malar que dava projeção às maçãs do rosto migra para a região nasolabial. O rosto que era triangular com o vértice para cima começa a parecer triangular com o vértice para baixo.

E a pele — última das camadas — responde a tudo isso. Ela não caiu sozinha. Ela foi levada.

Tratar só a pele, nesse contexto, é como ajustar o papel de parede de uma casa cujas paredes estão cedendo. Pode melhorar a aparência por um tempo. Mas sem tratar o que está sustentando tudo, o resultado é superficial — literalmente.

O corpo depois de emagrecer: o cenário que a indústria não quer que você entenda

Esse é um dos casos em que a conversa sobre colágeno mais atrapalha as pacientes.

Alguém emagreceu 25, 30, 40 quilos. Foi um trabalho enorme, longo, difícil. E ficou com pele sobrando — no abdome, nos braços, nas coxas. Ela vai a uma clínica estética, conta a história, e sai de lá com um protocolo de radiofrequência e colágeno injetável para "retração da pele".

Meses depois, gastou muito e melhorou pouco. Porque o problema nunca foi a qualidade do colágeno.

Quando a pele fica distendida por um período prolongado — anos de sobrepeso, múltiplas gestações — ela sofre dano estrutural permanente nas fibras de colágeno e elastina. Não é falta de colágeno. É destruição do arcabouço estrutural que permitiria a retração. A pele tem excesso real. Ela sobra.

Excesso de pele não retrai com aparelho. Não retrai com suplemento. Não retrai com nada que estimule colágeno, porque o problema não é a quantidade de colágeno — é que tem pele a mais do que o corpo precisa.

Isso não significa que o tratamento não existe. Significa que o tratamento correto é cirúrgico. E dizer isso cedo, com clareza, poupa a paciente de meses de protocolos que não vão chegar onde ela quer.

Quando os aparelhos funcionam — e quando não funcionam

Preciso ser justa aqui: radiofrequência funciona. HIFU funciona. Bioestimuladores funcionam. Laser funciona. Uso essas tecnologias no meu consultório e vejo resultados reais. O problema não é a tecnologia — é a indicação.

Esses tratamentos funcionam bem quando a flacidez é leve a moderada, quando a pele ainda tem reserva elástica, quando o que se quer é melhorar qualidade, firmeza e textura. Em pacientes mais jovens, com pele com boa elasticidade e sem excesso real de tecido, o resultado pode ser muito satisfatório.

O problema é quando se vende radiofrequência para uma paciente com cinco centímetros de excesso de pele abdominal depois de uma cirurgia bariátrica. Ou HIFU para uma paciente com ptose facial que precisava de lifting. O aparelho vai trabalhar, vai gerar calor, vai estimular algum colágeno — mas não vai mover tecido que está sobrando. Física não negocia.

Existe um ponto — diferente para cada pessoa — a partir do qual nenhum procedimento não cirúrgico produz o resultado que a paciente está buscando. Chegar a essa conversa com honestidade é parte do que faz uma consulta médica ser diferente de uma consulta em clínica estética. Eu prefiro dizer isso antes de um protocolo do que depois de vários.

Genética, sol, cigarro e açúcar: os fatores que ninguém quer ouvir

Duas mulheres com a mesma idade, o mesmo peso, o mesmo histórico de gestações. Uma tem pele firme. A outra não. Por quê?

Parte disso é genética, e precisa ser dito sem rodeios: tem gente que ganha na loteria da pele. Predisposição para produzir mais colágeno por mais tempo, pele naturalmente mais espessa, elastina que se degrada mais devagar. Não existe moral nisso — é biologia. E quando a paciente entende que o seu ponto de partida é diferente do de outra pessoa, ela para de se culpar por uma condição que em parte não depende dela.

Mas existem fatores que você controla e que têm impacto real.

O sol sem proteção é o principal destruidor da elastina. O processo se chama elastose solar, e acontece quando os raios UV degradam as fibras de elastina na derme. A pele de quem passou anos sem protetor solar tem uma flacidez com característica própria — uma textura diferente, amarelada em alguns casos, com perda de elasticidade que nenhum tratamento posterior vai reverter completamente. A proteção solar que você usa hoje não é vaidade. É a prevenção mais eficaz que existe contra flacidez futura.

O cigarro acelera o envelhecimento da pele por vários mecanismos: reduz a irrigação sanguínea dos tecidos, ativa enzimas que destroem colágeno, causa vasoconstrição crônica. Fumantes apresentam envelhecimento cutâneo visivelmente mais acelerado do que não fumantes da mesma idade. Isso é observável clinicamente — não é exagero.

O açúcar em excesso provoca glicação — uma reação química em que o açúcar se liga às proteínas da pele, incluindo o colágeno, tornando as fibras rígidas e quebradiças. Não é pauta de regime. É bioquímica. Uma alimentação com muito açúcar envelhece a pele de dentro para fora, independentemente do que você aplica por fora.

O que eu faço quando uma paciente chega com queixa de flacidez

A primeira coisa é ouvir — não o diagnóstico que ela chegou com, mas o que ela está sentindo e o que ela quer mudar. Porque frequentemente o problema que ela descreve não é o problema que estou vendo.

Depois, avalio. Qual é a qualidade da pele — espessura, elasticidade, textura? Tem excesso de tecido real ou é perda de firmeza? A queda é de pele, de músculo, de gordura ou de estrutura óssea? Tem exposição solar crônica? Variações de peso? Gestações? Tabagismo?

Só depois de entender o que está acontecendo de fato é que faz sentido falar em tratamento.

Às vezes o que a paciente precisa é um protocolo com bioestimuladores e radiofrequência, bem indicado, com expectativa realista. Às vezes é uma cirurgia. Às vezes é uma combinação em etapas. Às vezes é simplesmente explicar que o que ela está vendo é normal para a história que o corpo dela viveu — e que existe solução, mas ela é diferente do que alguém já sugeriu antes.

Não existe fórmula. Existe avaliação.

E existe honestidade para dizer quando o tratamento que vai funcionar não é o mais fácil de ouvir.

 

Perguntas e Respostas Frequentes

Suplemento de colágeno resolve flacidez?

Colágeno hidrolisado tem evidências crescentes de benefício para a hidratação e a qualidade da pele, especialmente quando tomado de forma consistente por meses. Ele pode ser parte de um cuidado integrado e faz sentido em muitos contextos. Mas a ideia de que vai "resolver" uma flacidez estabelecida é irrealista. Para quem tem excesso de pele, ptose significativa ou perda estrutural importante, o suplemento vai melhorar a qualidade do tecido — mas não vai mover nem retrair o que está sobrando.

Radiofrequência realmente funciona para flacidez?

Sim, em casos bem indicados. A radiofrequência aquece as camadas mais profundas da pele, provoca contração imediata das fibras de colágeno e estimula a produção de colágeno novo ao longo dos meses seguintes. Em flacidez leve a moderada, em pacientes com boa elasticidade residual, os resultados podem ser bastante satisfatórios. O limite está quando há excesso de pele real — aí a radiofrequência vai melhorar a qualidade do tecido, mas não vai fazer a pele desaparecer. Esse ponto precisa ser dito antes de começar o protocolo, não depois de vários meses de sessões.

Qual a diferença entre flacidez de pele e flacidez muscular?

Flacidez cutânea é quando a pele em si perde firmeza e elasticidade — as fibras de colágeno e elastina estão degradadas. Flacidez muscular é quando a musculatura perde volume e tonicidade, e como ela sustenta tudo acima dela, os tecidos caem junto. Uma pessoa pode ter as duas simultaneamente — e é comum. Tratar só a pele quando o problema é também ou principalmente muscular gera resultados incompletos.

Depois de emagrecer muito, a pele retrai sozinha?

Em alguns casos sim — especialmente em pessoas jovens, com boa elasticidade, que emagreceram uma quantidade menor. Mas em perdas de peso expressivas, em pacientes acima dos 35-40 anos ou em quem ficou com sobrepeso por muito tempo, a retração espontânea é mínima. O dano às fibras de elastina é permanente, e não existe estímulo não cirúrgico que recupere o que foi perdido nessa extensão. Quando há excesso real de pele, a única solução definitiva é cirúrgica.

Protetor solar realmente previne flacidez?

Sim — e é provavelmente a medida preventiva mais eficaz e mais subestimada. A radiação UV destrói fibras de elastina na derme em um processo chamado elastose solar. Como a elastina não se regenera de forma significativa na vida adulta, esse dano é permanente e cumulativo. O protetor solar FPS 30 ou superior, aplicado todos os dias — mesmo em dias nublados, mesmo dentro de casa se você fica perto de janelas — é o tratamento antiaging mais barato e mais eficaz que existe.

 

Dra. Camila Tlustak

Cirurgiã Plástica | CRM 45812 | RQE 44346

Porto Alegre, RS

dracamilatlustak.com.br

 

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui a consulta médica especializada. Agende uma consulta com a Dra. Camila Tlustak para avaliação individualizada.

 



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